segunda-feira, 13 de abril de 2015

Quem não sou

" Tornei-me uma figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. O que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me, destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho ao poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo. 

      Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça. E assim, em imagens sucessivas em que me descrevo — não sem verdade, mas com mentiras —, vou ficando mais nas imagens do que em mim, dizendo-me até não ser, escrevendo com a alma como tinta, útil para mais nada do que para se escrever com ela. Mas cessa a reacção, e de novo me resigno. Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada. E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas, ai, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei. A ficção acompanha-me, como a minha sombra. E o que quero é dormir."






 "Há um grande cansaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele. Caí entre as esperanças e as certezas, como os poentes todos."



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Texto: Fernando Pessoa
Imagem: Hotel Room, Edward Hopper. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Flor de brisa

A fumaça, sempre fui fascinada por fumaça. A do incenso é perfumada e mística, me agrada. Ascende pesada, como querendo pregar-se a tudo, aos móveis, ao vidro da janela, ao leãozinho do incensário que a vigia tão quieto. Seus espirais são caoticos, instáveis e dançantes; bailam a melodia do vento. É etérea como um pensamento, bonita como uma flor de brisa, mais leve que o ar e presente como uns olhos que observam. É linda em seu tempo fluido de dança.



 



Imagem: 'flor de brisa', Delira.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

La belle de jour

-Leia a minha mão. Se acertares algo, sou tua.

Ele quedou-se uns segundos estupefato. Com que, então; que coisa! A garota era bonita e tinha olhos misteriosos; no fundo, não admirava que o desafiasse.
Concentrou-se. Depositou cuidadosamente a mão dela sob a sua - aquela mão plena de histórias e gestos que a ele eram desconhecidos. Fechou os olhos; tentou, de qualquer forma, absorver o seu aroma, a sua proximidade e sua pessoa. Sabia que essa mão que estava sob a sua era uma ponte, breve raio de contato, e contentava-se mesmo com essa brevidade.
De olhos, agora, bem abertos - faiscando de confusão - ele a observava, atento: as linhas de seus olhos meio oblíquos; seu ar, em geral curioso; seu riso pueril dependurado da boca, insolente. Ela esperava, terna, à sua frente, à sua espera e à disposição. O sol iluminava-lhe os cabelos, e ele mirava-se nas pupilas escuras; reconheceu um ímpeto e arriscou-se com solenidade:
-És efêmera. Uma brisa colorida, um dente de leão.
Da expressão reticente que ela replicava ele arrancou a displicência e continuou:
- ...talvez teu lampejo seja certeiro, porém. Ou, quem sabe, sejas elétrica, distribuindo raios por aí, quando pensamos que é uma tarde de sol. Eu sei lá, nem compete a meu pensamento te desvendar, afinal. Mistério é bobagem. - E, à Houdini, sacou do bolso da calça uma caneta e rabiscou seu número na palma da mão confusa. O vento bagunçava-lhe os cabelos e ela tinha um ar perplexo. -Só pra variar. - disse e despediu-se numa mesura, dando-lhe as costas, deixando um sorriso torto para trás.
"Só pra variar", ria, imaginando sua cara quando ela ligasse e descobrisse que era o número errado.





https://www.youtube.com/watch?v=718UumUnZUA


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Imagem: Pretty Muse. Mais aqui: http://beautyandthebeachphotography.blogspot.com.br/2011_12_07_archive.html

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Lua em câncer



Tanta angústia perdida no espelho
Vasto tempo espalhado em lamentos
Quantos olhos de dentro da alma

Choram o passado perdido no vento?





And the world spinning round forever
Asleep in the sand with the ocean washing over.

Do amor como uma flor



Vejo-me pelos ocasos
E um formigueiro de gente
Anda por meu coração.
Garcia Lorca




Do amor como uma flor: viçoso, forte. Cria raiz no coração. Enfeita a alma, deixa a vida feliz – é um colorido pro tempo, uma lembrança constante no fundo da memória; no começo, no meio e no fim do presente, pra além do futuro.
Tempestade atinge a flor: o vento leva embora as folhas, as pétalas e a beleza. O colorido fica opaco, ensopado de tristeza. O jardineiro chora lágrimas sentidas, derrama sua alma e adormece com a terra. Chora dormindo; rega, com seu pranto trágico, a raiz da flor. Lá dentro da terra, a raiz treme. Se fortalece. Lá dentro da terra a raiz cresce, envolve o corpo do jardineiro triste. As flores dos sonhos dele agarram-se à raiz para dar-lhe força – será outra flor, de beleza triste e sublime.


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Imagem: Cherry blossoms, Van Gogh.
Para mais trabalhos do pintor, acesse https://m.artsy.net/search?term=Van+Gogh+ (em inglês). 


Dalila

Dalila bonita
Do passo de nuvem
E alma colorida
- cadê teu regaço?

A fada felina
Perdeu-se no espaço.

Bonita Dalila
Da auréola de cachos:
Vai dançar com Deus
O teu compasso.

Manda lembranças
E diz que aqui

Ficou só breu.  

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Carta extraviada



"Assim me habituei a morrer sem ti
Com uma esferográfica cravada no coração."
Al Berto




Era tarde, tarde do sol morno de outono, frio na sombra. Ele não gosta de frio, não é envolvente. Gosta de ser abraçado pela luz quente do sol como um abraço sensual; aquela luz que nos faz ficar com olhos felinos, meio fechados, gozando do prazer do dia iluminado.

Pensava nela, sua ultima desventura. Era o oposto. Gostava do frio, pra começar. Odiava o quente dos mosquitos e se envolvia em mil cachecóis e lenços. Isso era bonito; ela tinha sempre algo esvoaçando de si. E, como um lenço que se vai com o vento, ela se foi, atrás de uma aventura mais leve e lírica. “Em algum lugar do mundo, ela está atando as mãos de algum desgraçado com seus lenços de seda, brincando com o corpo dele; aquele sorriso lânguido espiando pela fresta da cama, sabendo o exato momento em que o cristal se parte e ela se torna a única a fazê-lo sofrer”, ele conjeturava; um arrepio descendo a espinha, o mesmo que ela conhecia.

Era tarde e ele encarava seu bourbon deixado na estante, ao lado dos livros, guardião da sabedoria poética de sua biblioteca. “Ser sentimental é a ruína de um homem”, escrevera certa vez. A luz incidia na garrafa com ternura, a bebida brilhava. Serviu-se de uma dose; dentro dela multidões de homens perdidos. Mais um, ali; mais um para a estatística perversa.

Viu o carteiro passando, essa coisa anacrônica que é um carteiro. Pensou nas gerações de cartas entregues no mundo: quantas histórias seriam escritas com todas aquelas palavras? Se escolhesse mil palavras aleatórias, que sentido trariam? Abriu três livros e circulou como pôde cinco palavras em cada, olhos fechados. “Ela”, “tarde”, “vinho”, “mundo”, “lenço”... desistiu. Três vezes cinco era a conta de sua angústia.

Viu o carteiro ao longe. Sentiu-se prático e foi recolher suas contas, as cartas do diabo. Entre papéis assépticos e fonte arial com seu próprio nome gasto pelo tempo, viu uma letra de mulher. Redonda, preguiçosa, como se se deixasse escorrer no envelope. Ela tinha um nome lírico. Verificou o remetente; seus olhos marejaram de desapontamento. Era outro. Um nome duro, cheio de sílabas pequenas, sem rima. Terminou seu bourbon, arremessou o copo na parede, sentou-se, abriu conta por conta, fez somas e perdeu-se em números. Todas elas abertas na mesa, a carta sobressaía, pequena pérola na lama. Ser sentimental é a ruína de um homem, rabiscou sobre uma data de vencimento. Julgou-se merecedor de uma carta de mulher; acima de tudo, sentiu-se curioso. Não podia suportar o peso daquele envelope fechado.  Loves a minor thing and Im a minor king, cantarolava fingindo calma. Observou a página única como se não soubesse ler: a letra, menos redonda, esparramava-se pela folha com irregularidade, quase com descuido; havia umas palavras rabiscadas aqui e ali – um sinal de intimidade ou de displicência?


“Este é um lugar solitário” era a primeira frase. O sangue corria grosso em suas veias – as cinco palavras, a nostálgica sentença que repetia a si mesmo. Love's a minor thing, cantava enquanto redigia a resposta  para o erro cósmico que lhe enchia a tarde.  





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Imagem: Letters, Van Gogh